quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Pensamentos e pesos

Hoje, minha vida é regar as plantas e  tentar não pensar. Sonhar o dia em que o amante, enfim, torna-se a coisa amada, sem limites nem fins. Não sei o quanto egoísta de minha parte é pensar em morrer, ter consciência de que consciência é só mais um problema para pensarmos nós mesmos. Pensar é nada! Preferia voar ou saber respirar debaixo d'água. Não dou a mínima para a solidão das palavras em pensamento, espelhos embaçados do mundo. Se eu morasse em um planeta de cinza concreto vazio de cor, então sim, poderia querer começar a pensar e refletir e sofrer e ser infeliz em querer começar a pensar. Imbecis somos quando pensamos, sentenciados a covardia e o medo do tiro. 
Pior ainda são os que pensam que pensar é magnífico, superior, é poder! Quanta mediocridade achar ser melhor ter uma tonelada de pensamentos pesando a mente, a conseguir respirar as águas do Oceano pacífico.Melhor ser um ser desprovido de ideias sobre números complexos, e poder saber produzir os quatro tons de roxo de uma única pétala de Ametista ou ser um Ipê-amarelo florescido diretamente da madeira-marrom seca, sem carecer de muito verde. 
Não me orgulho de ser humano desumanizado com pretensões de máquinas. Sobrevivo com esperança de evoluir a pedra. 

Jardim floral

Quando Ametista enfeita
Brinco-de-princesa,
Rosa chama
Azaléia a florescer

Vinca cresce
bons bocados,
Cambarás e camarões
Secam em
Fumaça úmida.

Beijo beija todas
Flores!
Boca de leão boceja
mostrando dentes e cores.

A Trepadeira?
Trepa, trepa
e trepa.

Vida aos Morangos!

Circo-lu

Balão arco-íris
Em terra
Espetáculo vivo,
Corpo e Arte.

Emoção toca
olhos e pele,
Acorda os pelos!

Vibram sentidos
Sobre céu-de-plástico
Colorido,
O uni-verso acontece.

Gestar

Há dias de lua
Acordar antes
Ao sol

Dias que nem dorme
Dias de ser inteira
Dias que s'encolhe

Poeira som

Entre cabeças, trafego
Minha visão, olho.
Reparo em ilusão
furta-som.

Ao abismo
Tiro do existir
Som vivo
Entranha a alma

Ao vivo,
Para o vivo
Do vivo.

Ondas invisíveis
Vindouras, Mar
sem sal
nem água.

Viajantes vento
batucada coração,
Destino de ar
vem bater meu coração.

Leva o corpo
tremer chão.
Terra de tambor-ritmo.

Bate pé e peito
Levanta poeira
Som.


terça-feira, 31 de julho de 2012

Não deveria esquecer que penso.
Sou doente
E penso, reflito
E remexo.

   Em tudo que deveria ficar
   Inerte e calado.
   Sem gritar! Sem suplicar.

Isso e Aquilo,
Tudo,
Qualquer coisa,
Tanto faz.

   Eu só sei que dói!
   Arde.
   Entorpece os sentidos.

O que é visivelmente invisível
O que não foi dito.
Porque já não
Há com o que se dizer.

   Já não se sente, já não se sabe!
   Ninguém entende,
   A dor que arde.

As vogais já perderam
As cores. E
Agora o que faço?
Agora, o que sou?

   Sem ritmo,
   Nem motivo.
   Nenhuma motivação.

Quantos ainda cantam?
Eu não.
Nada mais






Ser sol

Dias do Sol esconder
Entre montes,
Após os horizontes.
Ir direção
Ao inferno,
Renovar seu calor
E luz.

Faz subir
Nuvens fumaça,
Enxofre enferrujado
Em forma de cor.

Não escuto.
Ouço silêncio pesado
Íntima natureza.

Choro.
Estou junto a deus.

Ser pássaro

Canta meu peito
Piando solfejar
Triste, sereno
E pequeno,
Sou pássaro.

Ar que passa
Em meu pulmão
Percorre ventando
Minhas asas
E venta
o meu destino.

O tempo, a meu
Ver avoado,
É o céu e as árvores.

Uma vez pousei em uma árvore bem moça de folhas e raízes
E disse-me ela: - É tão difícil atravessar o chão e fazer crescer verde.

Cantei para ela
Por vários sois
Vi seus galhos engrossarem
A fazer sombra na terra.

Minhas penas mudaram
De cor e leveza
Enquanto acompanhei
O amadurecimento
Do paciente, Guapuruvu.


sexta-feira, 13 de julho de 2012

Finito

Miro o abismo,
Sinto-me pronta.
A curiosidade afronta,
Quando Céu negro
É fogo.

Nunca pensei bem
Se me afogo também
Em Mar vazio
De fundo.

Talvez seja esse
O meu chão
E meu mar, empoeirado
Como o sertão.

Assim,
Não me carece sonhar.

Basta triscar
O chão
Pesado e cheio.

Permaneço em queda,
Lancei-me já
Há tempos, neste
Fim infinito

Por que foge de mim?
Por que não vem?
Por que não se entrega?

Por que ainda estas vivo?
Por que ainda, eu mesma, não te matei?
Por que ainda me importo?

Por que não me acolhe?
Por que não se sacode?
Por que a página está vazia?

Por que está cheia de vazios?
Por que não há tinta?
Por que não há mais cor?

Por que vivemos espremidos?
Por que vivemos reprimidos?
Por que é Amor?
Hoje,



Arrumarei as malas

Pegarei as pedras

Andarei as estradas

Comerei as matas

Cantarei as latas

Plantarei as massas

Regarei as luzes

Olharei as luas

Morderei as uvas

Entupirei as cidades

Cobrarei as autoridades

Perderei as maldades

Sambarei as maravilhas

Derrubarei as muralhas

Soltarei as amarras

Prenderei as ministras

Abrirei as portas

Nadarei as areias

Venderei as moedas

Soprarei as ventanias

Poluirei as lixeiras

Limparei as sujeiras

Fecharei as torneiras

Desligarei as caldeiras

Amarei as cadeiras

Esperarei as calmarias

Cuspirei as tapeçarias

Socarei as bombas

Mastigarei as balas

Transarei as pernas

Completarei as vírgulas

Sentirei as odes

Ouvirei as árvores

Serei as flores

Sonharei as realidades

Dividirei as saudades

Apagarei as lâmpadas

Acenderei as velas

Economizarei as mentiras

Doarei as alegrias

Riscarei as poesias.


Mas, hoje é futuro nas mãos de quem caminha.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

O doce quando amarga

Derrete nuvens

Em comprimido,


Confunde:


Devora as imagens

Transformando tudo

Em sinestesia.


Cor em cheiro

Gosto em cor.

Brilha o sol da lua


Até os prédios

São de alguma natureza,

Selva de pedras.


Onde gritam todos,

Macacos.


Pedindo Circo e pão

Para não morrer

de fome.
Hoje, quem
Me abraça a mão, é
o Vento.

Traz proteção
Não pensar, só
Sentir...
Não cansar.

Continuar a pedir
Ao Mundo,
o mudo.

Mistério

A chuva lava sentidos
Meus choros.

Pingos escorrem
O entendimento
Misturam-se a
Espírito e cor.

Corpo,
no choro-do-céu.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Cantares

Quem canta Deus
Canta por viver
          estar vivo.


Entre divindades: flores,
sol, andorinhas...
          Mar.


Ama-o ante o desejo
de cantá-lo
          vivê-lo,


Na água ou
Pisando o chão.
          A Terra deve ser louvada!


Os animais,
pedras, plantas
          humanos.


(Concretas figuras
de deus
          mistério)


Cada um, sendo
por inteiro
          incompleto:


Um universo.
Imenso em nada
e        coisa alguma.